Reencarnação (Filme)
“Reencarnação” não é um bom filme embora tivesse tudo para ser pelo assunto polêmico que aborda.Em nenhum momento o enredo atinge as aspirações que insinuava ser capaz, o clima asséptico que o diretor cria para as cenas distancia ainda mais o espectador dos anseios de saber um pouco mais sobre as possibilidades de existirem ou não reencarnações.

 Nicole Kidman está como sempre muito bela(com um corte nos cabelos à la garçonne)  e adaptada ao papel de Anna, uma viúva que está prestes a se casar novamente e que perdeu o marido dez anos antes.Surge então um garoto de dez anos que afirma veementemente ser a reencarnação desse marido morto.

O mote é muito bom, mas o roteiro não desenvolve bem essa estória , em nenhum momento você consegue entrar na psique dos personagens e saber o que se passa com eles, quais são suas dúvidas , suas frustrações e anseios e isso causa uma frustração muito grande e principalmente sono!

O filme tenta ainda uma última cartada,  fisgar a platéia pelas polêmicas secundárias como o fato de Nicole beijar na boca um garoto de dez anos ou de ficar nua numa banheira com ele, aos mais puritanos isso causará desconforto , aos nem tanto soará como apelativo.

O Código da Vinci

O livro sensação da atualidade, “O código da Vinci”, na verdade é um tratado perspicaz do autor Dan Brown para criticar o catolicismo agudamente , os iconoclastas(pessoas que destroem mitos, ícones e símbolos) recebem portentosos dividendos por sua coragem de desafiar as grandes tradições da humanidade, talvez as pessoas estejam sedentas por novidades ou descrentes e descontentes com a sua velha fé, tudo que envolve o nome de Jesus Cristo será sempre controverso  e atrairá multidões , destruir a enraizada ideologia difundida pelo cristianismo é a missão fundamental desse livro.

Resumindo rapidamente a trama principal:  Jesus teria sido casado com Maria Madalena, que estaria grávida quando Cristo foi crucificado. Os descendentes daquela criança ainda teriam sobrevivido e se mantido no anonimato protegidos pelo Priorado de Sião, que é também o guardião da verdadeira fé em Jesus e Maria Madalena, baseada na teoria do sagrado feminino. A novela, portanto consiste numa corrida em demanda do Santo Graal, mas em vez de buscar o cálice da Última Ceia, procura principalmente os restos mortais de Maria Madalena.

A tese mais polêmica do autor é sobre a tela "A Última Ceia", de Leonardo Da Vinci, afirmando que quem está sentada à direita de Jesus é Maria Madalena e não o apóstolo  João (provavelmente ocupado a tomar apontamentos para o que seria o seu Evangelho e sem tempo para comer).

Apesar de tudo isso parecer mais um dessas amalucadas teorias da conspiração arquitetadas por lunáticos, o sucesso tem sido patente e relevante, romances policiais cercados por conspirações, mistérios e aventuras sempre aguçaram a curiosidade do público, muitos ao lerem "O Código da Vinci" ao contrário de ter questionada a sua fé, esta acaba sendo reavivada com a inesperada descoberta de que Jesus era humano como nós, foi casado, teve filhos, já para outros, isso choca profundamente e soa com tom de  oportunismo, Jesus Cristo em sendo filho de Deus jamais poderia ter se comportado como um mero mortal, para alguns religiosos pensar algo nessa dimensão seria sacrilégio e herético.

O livro ataca impetuosamente à divindade de Jesus Cristo que é negada, ressaltando-se a sua humanidade carnal, Dan Brown, parece querer provar que o cristianismo é o maior embuste da história da humanidade, entretanto ao misturar paganismo, gnosticismo, livros apócrifos, história, arte, religião, o autor mais confunde e deixa perplexo quem tem dúvidas, ao final do livro se você procurava respostas só terá ainda mais perguntas..

Para mim a falta de explicações plausíveis para muitos fatos da vida já trazem em si uma revelação, a de que nossa inteligência é limitada e nunca será capaz de alcançar os mistérios que estão escondidos no centro do universo onde Deus mora, e isso em si jamais será um fracasso e sim mais uma nuance de quem nos criou.

Alguns escritores são uma espécie de alquimistas modernos, misturam ingredientes mágicos para criar suas fórmulas e poções literárias, o uso do recurso de não se saber onde termina a realidade e aonde começa a ficção sempre funciona e vende muitos livros, alguns surgem pra confundir e não para explicar e ganham com a ingenuidade das pessoas.

Prefiro aqueles que mesmo sendo chamados de sonhadores são pelo menos honestos consigo mesmos e se misturam as sua realidades com suas  imaginações nunca tem a pretensão de serem donos da verdade.

Mar adentro
Assista a “Mar adentro” e esqueça que você é você, imagine-se pelo menos por um instante na alma de outrem, vendo o mundo pelos olhos de outro alguém...assista a “Mar adentro” e descubra que a morte também pode ser a razão de toda uma vida, que o resultado da soma de todas as vidas que temos ao longo desta que estamos vivemos só conhecemos quando a morte se aproxima...todos nós sonhamos com uma morte justa, assista a “Mar adentro” e descubra que de vez em quando pensar na morte é sobretudo exercitar uma reflexão profunda sobre a vida.

“Mar adentro” conta a história verídica de um marinheiro de 25 anos (Ramón Sampedro ) que ao saltar no mar bate a cabeça no fundo raso onde pensava que era fundo e fica tetraplégico(imobilizado do pescoço pra baixo) para sempre...interpretado de uma maneira que agora não encontro palavras para descrever por um ator espanhol que sempre me emocionou , Javier Bardem...sua interpretação é simplesmente magnífica, magistral, superlativa(olha eu tentando arrumar adjetivos).

O filme me tocou profundamente...lembro-me de ter vivido uma fraca, pálida e infinitesimal idéia desse drama....como ele um dia também pulei no mar, numa costeira que não conhecia, meu corpo mergulhou na água salgada com toda ousadia sem nenhum problema, naquele mar verde-esmeralda de São Sebastião...mas quando abri os olhos dei de cara com uma enorme rocha, uma pedra cinza e ameaçadora, afiada e pronta para terminar com meus sonhos...foi por pouco, mas por muito pouco mesmo que não dei com  a cabeça ali...a primeira pessoa que me veio na mente foi Marcelo Rubens Paiva..me via dizendo as pessoas “Feliz ano velho” pro resto de minha vida.

Por isso sou um homem da pele lisa e um menino da alma enrugada, quando se escapa do pior, algo muda em você , nem todos nós temos a alma felina como prerrogativa de muitas vidas( eu posso dizer com muito medo que já gastei quase todas elas )...saí do filme me escondendo pelos cantos, não queria que estranhos me vissem aos prantos...apesar de sensível meu choro não é assim tão fácil, choro quando me vejo traduzido.

E por fim quero deixar o poema escrito pelo protagonista da história , o querido Ramom Sampedro, assim  no original em espanhol mesmo, que é para que ele não perca a essência...

Mas se você ouvir Javier Bardem declamando esse poema como ele faz no fim do filme dificilmente não vai chorar de emoção(para ouvir tem um jeito, copie esse link que estou dando e depois abra o windows media player em seguida vá na guia “arquivo” procure por  “abrir URL” e cole esse link e de ok : http://mibclient3.terra.com.br/MIBGetPointer.aspx?MMEDIA=185961)

 

Quando não temos as próprias emoções, ou estamos um pouco secos, emprestamos a dos outros para inrrigarmos nosso deserto e nos emocionarmos sem culpas:

 

 

Mar Adentro

(Ramon Sampedro)

 

Mar adentro, mar adentro.
Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
'más adentro', 'más adentro'
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

Eterno amor

“Eterno amor” é um filme muito sensível e delicado e conta com a atuação de uma das atrizes que mais admiro, Audrey Tatou, a mesma de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”.

O titulo do filme escolhido aqui no Brasil remete ao radicalismo romântico, em francês, a língua original do filme,o  titulo é mais realista:“Un long dimanche de fiançailles” e a tradução seria “ Um noivado longo demais” que condiz melhor com o sentido e o argumento principal do filme : a espera por alguém que parece que nunca mais vai voltar.

Mathilde(Audrey Tatou) é uma garota do interior da França que teve poliomielite e apresenta problemas de locomoção desde muito nova e para piorar é órfã de pai e mãe...felizmente é criada por tios justos, embora não entendam seus intensos sentimentos.

Manech (Gaspard Ulliel, guardem esse nome, pos o ator é promissor) é a outra ponta desse casal e desse amor sublime amor, ele vai para a guerra, a primeira guerra mundial, e sofre com os desatinos e loucuras que uma guerra obriga seus participantes a sofrer, graças a isso essa “love story” ganha ares dramáticos e afetuosos sem enveredar pelo excesso de sentimentalismo que alguns podem alardear antes de assistir o filme.

Para entender Mathilde fica mais fácil se você já assistiu a “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, pois Mathilde tem um quê de Amelie, embora Mathilde seja muita mais decidida e intensa, obstinada, destemida e  objetiva, Amelie era uma sonhadora ingênua capaz de transformar a própria realidade...os olhos de “esquilinhos assustados” de Audrey Tatou inspiram muita confiança nos papeis que ela desempenha...criam no espectador uma espécie de ternura.

A história versa sobre a intuição que desenvolvemos quando amamos intensamente alguém...uma ligação vigorosa que se estabelece entre os amantes, uma ponte que é construída entre seus corações e suas almas ficam tão conectadas que são capazes de se comunicar sem palavras, a distância não é capaz de impedir seu contato e o passar do tempo é ignorado solenemente por esse sentimento...é o que chamam de alma gêmea , é aquele tipo de amor que só vivemos uma vez em cada vida.

O filme vale a pena não só pelo sentimentalismo e pela belíssima fotografia, mas pela forma que a história é contada sem pressa, prendendo a atenção do espectador sem ser enfadonho e pelas técnicas cinematográficas empregadas que lembram muitas vezes grandes clássicos do cinema.

O aviador

“O aviador” é um filme épico com todos os defeitos e qualidades que esse gênero de filme carrega consigo, mas a indústria cinematográfica de Hollywood é especialista na realização dessas películas e sempre leva a muito sério essas produções , o resultado é o alto padrão de acuidade dos cenários e reconstituições de época que beiram a perfeição em sua qualidade de reprodução na tela gigante.

Ainda soma-se mais a esses fatores quando encontramos diretores perfeccionistas como Martin Scorsese que cuida de detalhes que geralmente passam desapercebidos a outros diretores e o ator Leonardo Dicaprio tentando provar para todos que não é só um rostinho bonito e tem talento sobrando na arte dramática que é interpretar outrem.

Ao assistir o filme tive a sensação que estava diante de um homem fragmentado (o aviador Howard Hughes interpretado por Dicaprio) que estava o tempo todo tendo graves conflitos internos e que se equilibrava sem proteção numa linha muito tênue que separava a genialidade da loucura.

Howard tinha ainda outros importantes  embates que ocorriam no seu mundo interior, a todo instante havia a contenda entre Obsessão X Persistência e que sua sanidade mental era seu maior inimigo já que fora piorando com o passar dos anos.

Howard Hughes foi um bilionário excêntrico como muitos outros existiram e existem, mas o que o diferenciou dos outros foi o fato dele ter estado envolvido até o último fio de cabelo em duas atividades que mais fascinam a humanidade: Filmes e Aviões.

Suas obsessões  jamais conheceram limites dado o volume de sua fortuna, ele era o que podemos chamar de “podre de rico”(porque alguém muito rico é chamado assim, podre?), teve tudo que quis e sonhou, não haviam fronteiras para seu desejo.

O fato triste da biografia de Hughes é que ele sempre foi muito mais conhecido pela maneira que terminou sua vida do que realizou ao longo dela, germofóbico(pânico ou aversão à germes) tinha obsessão por limpeza(episódio que possivelmente tenha nascido em sua infância) terminou seus dias trancado num quarto de hotel sem tomar banho durante anos, sem cortar os cabelos e unhas e com uma aparência grotesca...difícil acreditar que um homem que tenha namorado mulheres estonteantes como Ava Gardner, Katharine Hepburn e Jean Harlow tenha terminado sua vida dessa forma...cruel, mas ele serve como exemplo.

O dinheiro resolve muitos problemas, mas cria muitos outros e o único patrimônio que equilibra essa equação é a riqueza da alma, os demônios internos muitas vezes podem se sobrepor  aos nossos anjos da guarda e não importa quem você seja isso pode ser a sua ruína.

Quanto mais alto você voar, maior poderá ser sua queda....ter asas não é garantia de que você nunca irá se espatifar no chão.

RAY
Ao assistir “Ray” você descobre quem era realmente o homem que vivia por de trás daquela poderosa voz e do som apimentado de seu piano.

O filme vale cada real pago pelo ingresso só  pela atuação de dois personagens:

A performance da atriz que faz  a mãe de Ray é emocionante e dificilmente não fará você lembrar da sua própria mãe, eu lembrei muito da minha...nossas mães passam para nós muito mais que sua herança genética, põe o próprio coração delas batendo em nosso peito.

Jamie Foxx, que faz o papel de Ray Charles, incorpora totalmente o personagem e algumas vezes ,mesmo com o olho grudado na tela,  eles vão lhe trair e você chegará mesmo a acreditar que é o próprio Ray que está lá atuando e sendo personagem de sua historia .

Basta dizer que Foxx foi aprovado por Ray em carne e osso e chegou até mesmo a cegar-se (através de próteses) para “ver” como Ray Charles via e sentia o mundo, seus gestos são totalmente idênticos ao verdadeiro Ray...e o resultado é um filme que emociona e até faz dançar...se você quando assistir ao filme olhar discretamente para as pessoas ao seu lado, perceberá que pelo menos os pés elas estão mexendo enquanto as músicas do filme ecoam pela sala do cinema.

A  vida de Ray Charles merecia mesmo ser retratada e eternizada para que as gerações futuras entendessem duas coisas simples, porém essenciais sobre a vida:

Primeiro que tudo tem um preço e muitas vezes esses preço é alto demais para ser ignorado e a segunda é que os nossos conflitos morais podem muitas vezes nos levar a ruína se nos fizermos de fracos ou a superação se resolvermos ser fortes.

O que você diria sobre seu destino se fosse cego, pobre e negro num país extremamente racista ainda um dia se envolvesse com uma droga pesada? Certamente saberia que sua vida seria muito dura e cairia na tentação de  fazer do destino uma espécie de semi-Deus como muitos de nós o fazemos, pois aqueles que acreditam em destino se parecem muito com títeres que são controlados por mãos que não são as suas, acredito em um só tipo de destino, aquele que determina o dia do meu nascimento e o dia da minha morte, o resto sou eu quem escreve...Ray subverteu todas as possibilidades negativas que podiam existir contra ele.
Inventou um estilo musical, “música da alma” ou Soulmusic, pai do rock, do Rap e certamente influenciou tudo que chamamos de música nos dias de hoje...as pessoas normais vêem , os gênios antevêem...e se essa pessoa for um cego dá para se imaginar o tamanho de sua alma que transbordava pela sua voz...nunca mais vou escutar “Hit the Road, Jack”, “Geórgia on my mind”, “Unchain my heart” e “I can´t stop loving you” com os mesmos ouvidos, Ray Charles tornou-se certamente um dos gigantes da minha alma...aliás chego a loucura de acreditar que a minha vida nunca mais será a mesma depois de alguns filmes que assisto e saber mais sobre RAY me fez uma pessoa melhor.

Sideways

Sideways é um filme que faz uma ponte metafórica entre o vinho e a vida, tentando mostrar que muitos de nós somos como vinho e outros se parecem mais com vinagre.

Ser vinho é estar melhor a cada dia, é ter um ápice, um apogeu e desfrutar disso em toda plenitude e depois viver uma decadência tranqüila, morna e ir ficando pelo caminho.

Ser vinagre é nunca ter chegado a ser vinho, ou até já ter sido vinho, mas depois ter virado vinagre, amargando, perdendo o sabor e o desejo pela vida, vinho tem paixão e é sangüíneo quando tinto, quando brancos são gelados e parecem néctares de ingênuos,mas podem ser mortais feito picadas de uma cobra na boca dos desavisados...vinagres só servem para temperar saladas para os outros comerem.

O filme versa sobre a viagem que dois amigos fazem as vésperas do casamento de um deles ao vale dos vinhos na Califórnia, uma dupla dinâmica que tem mais diferenças do que semelhanças, como tantas amizades que vemos e temos por aí, o que dá uma química muito especial a qualquer parceria.

Miles Faymond, que é interpretado pelo ótimo Paul Giamatti, e que se diga de passagem, lembra e muito Homer Simpson, é um desmotivado professor de inglês , divorciado que não consegue se envolver com outras mulheres porque ainda é apaixonado pela ex-mulher e escritor frustrado que não consegue publicar seu romance, tem todos os elementos da típica figura que na cultura americana é denominada “Loser” ou fracassado em português, mas de vinhos ele entende e muito bem

Do outro lado temos Jack que também não é o mais bem-sucedido dos mortais: um ator de quinta categoria que até já foi bom no passado chegando até mesmo a estrelar uma pequena serie de tevê, mas que agora só faz pontas em pequenos comerciais e que não está muito na onda de experimentar Pinots ou Cabernets (tipos de vinho), mas quer é ter uma boa despedida de solteiro com uma ou várias garotas bem “quentes”.

O interessante do filme é que ele aborda uma fase da vida chamada “meio do caminho”, ou mais conhecida como “Crise de meia idade” que se abate sobre nós, uma encruzilhada quando você cai na armadilha de deixar o passado dizer quem você é ou quem você será, ainda não estou na meia idade, pelo menos não penso que estou, porque quero viver 92 anos e só tenho 30, mas acho que já vivo isso muitas vezes.

Milles é depressivo, Jack alto astral , Milles é pacato, Jack é ligado na tomada, sintonia perfeita para se fazer uma viagem e conseguir aproveitar o que se tem de melhor nela que é sair da rotina e buscar a si nas paisagens que se descortinam aos olhos e nas novas pessoas que acidentalmente(para aqueles que não acreditam em destino) atravessam nossos roteiros.

Recomendo o filme para aqueles que buscam diversão não muito simples, mas eficaz, já que o filme não é em nenhuma medida moralista e tem um humor ácido e inteligente sobre questões da vida que muitas vezes passam desapercebidas não por falta de importância, mas por falta de oportunidade ou vivência.

Em busca da terra do nunca

Se fosse possível resumir em simples palavras qual o tema principal do filme, elas caberiam nessa pequena frase: É um filme sobre a imaginação.

O mundo de fantasia criado pelo escritor escocês  James Matthew Barrie, aqui interpretado competentemente por Jonnhy Deep, é a matriz principal do enredo que ainda é permeado pela sua relação muito próxima com o universo infantil.

Existe dentro de cada um de nós uma criança sonhadora, aquela mesma que tinha amigos imaginários ou que se divertia sem brinquedos, que transformava qualquer realidade em um interessante jogo lúdico, alguns seres humanos são capazes de manter viva essa porção, essa metade, como o escritor escocês que criou a terra do nunca e Peter Pan.

James Barrie gostava de se inspirar ao ar livre, escrevia num parque(o melhor lugar do mundo para se escrever) e conhece acidentalmente a família formada por quatro meninos e a mãe Viúva(Kate Winslet, sempre ótima e já bem descolada da personagem que fez em Titanic) que serão a inspiração maior do seu trabalho e de sua vida.

Acontece que os meninos sofrem muito com a ausência paterna e tem tristes feridas em sua alma, traumatizados por uma doença que ceifou a vida daquele que até então era seu pai-herói, mas Barrie surge magicamente com seu universo de faz-de-conta para salvá-los desse terrível infortúnio.

O filme me fez lembrar que cresci assistindo ao “Sitio do pica-pau Amarelo” de Monteiro Lobato, um universo maravilhoso da imaginação de um homem brilhante e que transformou muito a minha vida e enriqueceu grandemente minha capacidade imaginativa.

Sei que, a infância é um lugar seguro, porque nela está a essência de nossa existência, a pureza que tingia nossos dias de felicidade com coisas tão simples e que quando nos sentimos sós ou feridos é pra lá que fugimos, que por mais triste, pobre e miserável que essa época tenha sido, no fundo ainda somos os mesmos, a mesma criança que brincava no quintal de casa, minha terra do nunca é lembrar do quintal de minha casa.

Na história surge um assunto muito adulto: a dificuldade de relacionamento entre o escritor e sua esposa. Pessoas com a imaginação exacerbada tendem a serem consideradas excêntricas e não normais, isso é uma injustiça, e um fator a ser superado por Barrie e todos aqueles que  vieram antes e depois dele, não é fácil, mas faz parte do “show”.

O filme desnuda com sutileza, como Peter Pan nasceu da fantástica imaginação de um homem e da sua relação apaixonada com o universo infantil, ele cria a peça com açúcar e afeto para si e para quatro meninos traumatizados que vêem seu mundo ganhar brilho e sentido pelo encantamento da vivência plena de suas infâncias.

Creio que, o filme poderá não agradar aqueles que por circunstancias alheias tenham se tornado “duros” demais, ou que pelas contingências da vida se esqueceram de o quanto é bom ser criança sem ter medo de parecer infantil demais para a própria idade, mas acertará em cheio o coração de quem ainda mantém queimando dentro de si a chama eterna de sua infância.

A partida do trem para as estrelas
Nasce aqui meu Blog destinado aos sonhos, músicas e cinema numa viagem de um trem que vai estar sempre seguindo em direção as estrelas...não precisa bagagem pra viajar nesse trem.
“Menina de ouro”

Se eu pudesse dar uma dica sobre um bom filme a ser assistido dos que estão atualmente em cartaz, eu diria que “Menina de Ouro” é imperdível e explico porque.

“Menina de ouro” é um filme de Clint Eastwood em todos os aspectos, desde a direção até a escolha do enredo e roteiro, se você não gostava de Clint Eastwood até agora, algo vai mudar depois que sair do cinema, porque Clint não está a interpretar mais um personagem, ele está interpretando a si mesmo...e nós sabemos que esse é o papel mais difícil de ser interpretado em nossas vidas.

Existe no filme uma forte relação de culpa entre o pai(Clint) e uma filha, é preciso que se diga que na vida REAL , Clint, tem problemas sérios com a filha mais velha, que tentava roubar quadros, dinheiro e até carros da casa do pai por querer receber sua herança com ele ainda vivo, até que este se viu obrigado a requerer na justiça uma ordem judicial para mantê-la afastada, a resposta de Clint para a filha foi: “Get a Job!”(Arrume um emprego!)

Boxe não é exatamente o mais interessante dos esportes, mas usá-lo como pano de fundo para contar uma história humana e de superação é algo que o filme faz eficazmente e com muita maestria, na verdade, o boxe é só uma metáfora para uma outra luta...essa que travamos diariamente, a luta pela vida!

Clint Eastwood, não é como outros atores que envelheceram mal, ele faz papeis de pessoas de sua própria idade. Seu personagem no filme tem um conflito psicológico muito interessante com Deus e muitas lições desse conflito podem ser tiradas.

O filme ainda tem Morgan Freeman num papel majestosamente interpretado, com uma carga emocional maravilhosa, ele é o narrador da história e é o que expõe os sentimentos mais puros dos outros personagens, exibi o coração deles para nós, a platéia,  que certamente estará sempre a um passo de beirar as lágrimas.

Você pode até pensar que: “De drama já basta a minha vida” ou “Tantos problemas na vida, não vou ao cinema pra ver isso”, concordo que é uma maneira de pensar e de preferência,  realmente temos que procurar aquilo que nos interessa e que nos diga algo de acordo com nossas convicções, mas se você gosta de reflexão e da realidade nua e crua, tem nesse filme uma boa oportunidade de apreciá-las.

E uma das maiores responsáveis do êxito geral desse filme é Hillary Swank, que faz o papel de uma lutadora não só de Boxe, mas uma guerreira pela vida...o seu personagem me fez pensar muito sobre a nossa sobrevivência, que embora não estejamos mais na selva verde, estamos em outra selva, cinza e de aço, ainda nos comportando como feras indomadas e indomesticáveis, me fez pensar seriamente sobre a esperança e que não importa quem você seja ou o que tenha construído , se não tiver esperança, você não tem nada!

O filme é uma grande homenagem as mulheres, porque em nenhum momento explora a sua imagem de forma pejorativa ou procurando mostrar sua sexualidade, mostra sim a garra destas e a força de dar inveja a nós homens que tantas vezes nos falta em nossos momentos mais agudos, mostra que as mulheres podem até ser o mais vulnerável e instável dos sexos, mas tem uma capacidade de superação e de dar a volta por cima que compensa todas as suas fragilidades.

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